Ou ela ou meu cavalo
baio
Galinhas,
patos e toda espécie de aves que aparece e desaparece a seu bel prazer.
O
patrão é homem bom que mantém o lugar mais por obrigação do que por amor, pois
pertence a sua família desde sempre.
Hoje
estão estabelecidos na capital não têm necessidade alguma de virem pra cá.
Mesmo assim vêm de vez em quando, principalmente nas férias.
Aí
juntam turma entre familiares e amigos para curtirem a roça.
Não
gosto dessa época. Atrapalham meu trabalho. Quem gosta mesmo é a turma da
limpeza. As mulheres do vilarejo se alegram demais com o dinheiro extra.
E
nesse ano não foi diferente. O pessoal chegou logo nos primeiros dias do mês.
Como estava tudo em ordem a minha ideia era deixar que eles comandassem a
situação e então eu montaria na garupa do meu cavalo baio e tudo seria como
sempre.
Mas
daí eu a vi.
Foi
como se o sol fosse ofuscado pelo brilho do seu sorriso.
Os
cabelos sedosos balançando de um lado para o outro ao se admirar com cada
pedacinho do rancho.
O
filho do patrão era todo babão. Mal se dava conta de como estava encantado por
ela.
Sorrisão
na cara todo solícito.
Eu
que não queria ficar assim não. Por aqui as mulheres que babam por mim, pelo
menos é o que dizem por aí.
Rosália
é que toma conta da casa nessa época e logo percebe todo o alvoroço em torno da
moça. Diz que para ela sua beleza não fede nem cheira, mas o que importa é a
simpatia.
E a danada além de linda é a simpatia em
pessoa.
Quer
percorrer todos os cantos do sítio. O patrãozinho não dá conta e encarrega o
empregado, no caso eu, de fazer o turismo na região.
Melina.
Esse é o nome dela. Rima com menina. E menina é sinônimo de graça e esperteza.
A
primeira coisa que ela quer é conhecer todos os bichos. Se encanta pelo sistema
de criação do rancho. Se alegra com toda a fartura da horta, dos ovos do
galinheiro, dos peixes do criadouro.
E o
sorriso se alarga quando descobre a cachoeira que desagua no rio Manso, que de
manso mesmo só tem o nome. Mas ela não tem medo, diz que nada como um peixe.
Que
peixe o quê, para mim está mais pra sereia.
Rosália
estranha me ver corar, nunca me imaginou vermelho diante de um elogio.
Mas é
exatamente assim que fico diante do entusiasmo da moça. Ela amou o lugar. Meu
lugar.
Tudo
bem o rancho pode não ser meu, mas tudo que tem aqui é fruto do meu trabalho,
portanto é gratificante ver seu sorriso de admiração elogiando minha
competência.
Descubro
nessa hora que a moça é estudada. Fez faculdade de Engenharia Ambiental. Nome
pomposo que segundo ela nada mais é que organizar e fazer o maravilhoso
trabalho que eu fiz ali. E sozinho. Sem diploma nem nada.
Agora
já sinto até as orelhas queimando. Trabalho de sol a sol todos os dias da
semana e apesar de receber meu pagamento todo mês em dinheiro o melhor mesmo é
ver o progresso do sítio.
Rancho
Fundo foi batizado por conta da famosa música sertaneja, mas Melina o rebatiza
de ‘rancho lindo’.
Linda
mesmo é essa menina. Melina.
Todo
dia uma surpresa. Que esse mês nunca se acabe. E ainda por cima a danada diz
que se apaixonou por meu cavalo baio.
Apaixonado
estou ficando eu.
O
patrãozinho não tem chance. Não aquenta sequer os mosquitos e vive de
repelente. Sempre a convidando para a piscina, que ela recusa sorrindo ‘quem
quer água parada quando tem um rio imenso?’
Certa
noite de calor sufocante, fui para o rio me refrescar e me deparo com uma cena
impressionante.
Nada
mais nada menos que a linda Melina, nua, brincando nas águas do rio.
Meu
cavalo baio me denuncia reconhecendo sua favorita.
Relincha
alto, mas ela não se assusta.
Sorrindo
me convida:
— Vem
seu enxerido, até parece que adivinhou meu pensamento.
Não
sei se ela percebeu minha covardia, mas para minha alegria ela mergulhou e logo
depois emergiu me desafiando:
—
Está com medo cowboy!
Mais
que depressa apeei do meu cavalo e tirando a roupa apressado mergulhei no
desconhecido.
Linda
menina Melina, que de menina não tem nada.
Naquela
noite estrelada nascia uma nova vida para mim.
O que
nunca cogitei aconteceu naquela madrugada.
A
lua, as estrelas e meu cavalo baio foram testemunhas do nosso amor.
Tanto
o patrão quanto o filho, depois daquelas férias já sabiam que nada nunca mais
seria como antes.
Eu e
Melina. Melina e eu.
Almas
gêmeas ou metades da mesma laranja. A tampa da panela, o pé certo para o
chinelo… isso não importa.
O que
interessa mesmo é que nunca precisei escolher entre ela ou meu cavalo baio.
Desde
esse dia eu tenho os dois.
https://tinyurl.com/y6ykwe66


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe sua opinião aqui