sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020


 Ou ela ou meu cavalo baio

O rancho é meu lar. Trabalho de sol a sol na labuta diária onde cuido da criação do sítio.
Galinhas, patos e toda espécie de aves que aparece e desaparece a seu bel prazer.
O patrão é homem bom que mantém o lugar mais por obrigação do que por amor, pois pertence a sua família desde sempre.
Hoje estão estabelecidos na capital não têm necessidade alguma de virem pra cá. Mesmo assim vêm de vez em quando, principalmente nas férias.
Aí juntam turma entre familiares e amigos para curtirem a roça.
Não gosto dessa época. Atrapalham meu trabalho. Quem gosta mesmo é a turma da limpeza. As mulheres do vilarejo se alegram demais com o dinheiro extra.
E nesse ano não foi diferente. O pessoal chegou logo nos primeiros dias do mês. Como estava tudo em ordem a minha ideia era deixar que eles comandassem a situação e então eu montaria na garupa do meu cavalo baio e tudo seria como sempre.
Mas daí eu a vi.
Foi como se o sol fosse ofuscado pelo brilho do seu sorriso.
Os cabelos sedosos balançando de um lado para o outro ao se admirar com cada pedacinho do rancho.
O filho do patrão era todo babão. Mal se dava conta de como estava encantado por ela.
Sorrisão na cara todo solícito.
Eu que não queria ficar assim não. Por aqui as mulheres que babam por mim, pelo menos é o que dizem por aí.
Rosália é que toma conta da casa nessa época e logo percebe todo o alvoroço em torno da moça. Diz que para ela sua beleza não fede nem cheira, mas o que importa é a simpatia.
 E a danada além de linda é a simpatia em pessoa.
Quer percorrer todos os cantos do sítio. O patrãozinho não dá conta e encarrega o empregado, no caso eu, de fazer o turismo na região.
Melina. Esse é o nome dela. Rima com menina. E menina é sinônimo de graça e esperteza.
A primeira coisa que ela quer é conhecer todos os bichos. Se encanta pelo sistema de criação do rancho. Se alegra com toda a fartura da horta, dos ovos do galinheiro, dos peixes do criadouro.
E o sorriso se alarga quando descobre a cachoeira que desagua no rio Manso, que de manso mesmo só tem o nome. Mas ela não tem medo, diz que nada como um peixe.
Que peixe o quê, para mim está mais pra sereia.
Rosália estranha me ver corar, nunca me imaginou vermelho diante de um elogio.
Mas é exatamente assim que fico diante do entusiasmo da moça. Ela amou o lugar. Meu lugar.
Tudo bem o rancho pode não ser meu, mas tudo que tem aqui é fruto do meu trabalho, portanto é gratificante ver seu sorriso de admiração elogiando minha competência.
Descubro nessa hora que a moça é estudada. Fez faculdade de Engenharia Ambiental. Nome pomposo que segundo ela nada mais é que organizar e fazer o maravilhoso trabalho que eu fiz ali. E sozinho. Sem diploma nem nada.
Agora já sinto até as orelhas queimando. Trabalho de sol a sol todos os dias da semana e apesar de receber meu pagamento todo mês em dinheiro o melhor mesmo é ver o progresso do sítio.
Rancho Fundo foi batizado por conta da famosa música sertaneja, mas Melina o rebatiza de ‘rancho lindo’.
Linda mesmo é essa menina. Melina.
Todo dia uma surpresa. Que esse mês nunca se acabe. E ainda por cima a danada diz que se apaixonou por meu cavalo baio.
Apaixonado estou ficando eu.
O patrãozinho não tem chance. Não aquenta sequer os mosquitos e vive de repelente. Sempre a convidando para a piscina, que ela recusa sorrindo ‘quem quer água parada quando tem um rio imenso?’
Certa noite de calor sufocante, fui para o rio me refrescar e me deparo com uma cena impressionante.
Nada mais nada menos que a linda Melina, nua, brincando nas águas do rio.
Meu cavalo baio me denuncia reconhecendo sua favorita.
Relincha alto, mas ela não se assusta.
Sorrindo me convida:
— Vem seu enxerido, até parece que adivinhou meu pensamento.
Não sei se ela percebeu minha covardia, mas para minha alegria ela mergulhou e logo depois emergiu me desafiando:
— Está com medo cowboy!
Mais que depressa apeei do meu cavalo e tirando a roupa apressado mergulhei no desconhecido.
Linda menina Melina, que de menina não tem nada.
Naquela noite estrelada nascia uma nova vida para mim.
O que nunca cogitei aconteceu naquela madrugada.
A lua, as estrelas e meu cavalo baio foram testemunhas do nosso amor.
Tanto o patrão quanto o filho, depois daquelas férias já sabiam que nada nunca mais seria como antes.
Eu e Melina. Melina e eu.
Almas gêmeas ou metades da mesma laranja. A tampa da panela, o pé certo para o chinelo… isso não importa.
O que interessa mesmo é que nunca precisei escolher entre ela ou meu cavalo baio.
Desde esse dia eu tenho os dois.



'Corações Femininos'
-Contos e Crônicas- 
https://tinyurl.com/y6ykwe66

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