quarta-feira, 25 de março de 2020


Sonhos de Alice

A vida de Alice não anda nada bem.
Na pequena e pacata cidade de nascença é sempre tudo igual.
Às margens da rodovia o que prevalece são as cores cinza e amarelo ocre da poeira que confunde coisas e pessoas.
Alice não é uma beleza estonteante, mas dá para o gasto.
A pele clara contrasta com os cabelos negros, que infelizmente não são sedosos como nos anúncios de shampoo. São encaracolados em grossos cachos que não se desembaraçam com facilidade e muito menos caem soltos pelos ombros, por isso mesmo precisam ficar presos o tempo todo.
Alice tem consciência de que bons cremes de hidratação ajudaria no penteado, porém o mísero salário de atendente de lanchonete anexa ao posto de gasolina mal dá para a sobrevivência própria e a família conta com sua ajuda financeira.
O corpo de mulher ganhou forma adulta a pouco tempo e já chama a atenção masculina.
A moça sempre sonhou em conhecer o príncipe encantado, mas hoje reconhece que isso é bobagem. Já se engraçou com o filho do patrão só ficando nos amassos próprios dos namoricos adolescentes.
Apaixonou-se pelo professor de Educação física, pelo dono da padaria e depois pelo trapezista do circo que passou pela cidade. Todos os amores platônicos.
Sonha em viajar de trem, avião ou ônibus mesmo. Conhecer primeiro a capital, depois ganhar o mundo!
O balcão da lanchonete é seu ponto de partida, sempre que tem uma folga fica com os olhos perdidos sonhando acordada.
Em um desses dias um grupo de jovens viajantes formados por três rapazes e duas moças resolveu parar no posto de gasolina para abastecer o carro e o estômago.
Um deles entediado com a viagem senta-se a mesa empoeirada e chama pela avoada garçonete. Os olhos de ambos faíscam mediante esse primeiro contato.
A menina vê despertar em si os sonhos mais secretos.
O rapaz com roupas amarrotadas e cansaço visível passa as mãos pela barba por fazer, espicha o corpo enxerga além, muito além da moça descuidada por falta de produtos de beleza ele enxerga uma alma sedenta por vida.
Vida nova, vida pura, uma vida sedenta de amor.
Alice por sua vez, não entende o sentimento que invade seu ser. O palpitar do coração ou o suor das mãos que pode ser visto também na mancha escura abaixo das axilas.
O sorriso frouxo do casal é notado pelos companheiros de viagem que volta do passeio pelos arredores do posto e lanchonete e encontram o outrora chateado amigo agora recomposto, revigorado trocando sorrisos com a atendente engraçadinha.
Pedro se transforma novamente no rapaz animado de 27 anos que até aquele momento não tivera a oportunidade de apreciar as coisas simples da vida.
Nasceu em meio ao luxo e desde a infância até hoje vive sob a pressão de manter o legado patrimonial da família. Volta e meia se apaixona por beldades morenas, loiras e ruivas estonteantes, mas quase nunca consegue enxergar nelas o que espera.
O sorriso dessa garçonete é diferente aos seus olhos.
Ela com certeza não vê o homem rico e cheio de responsabilidades que ele é, Pedro também não precisa se esforçar para ver nela muito mais que os cabelos rebeldes e olhos sonhadores.
Talvez o destino dos dois se cruzasse apenas para as formalidades da beira da estrada, mas ele quer mais. E ela sonha mais.
Entre os amigos do rapaz está Bárbara uma ruiva maravilhosa que vinha fazendo de tudo para chamar a atenção de Pedro. Sufocante e geniosa logo percebe o interesse dele pela moça de cabelos e pele ressecada.
Bárbara poderia odiar essa garçonete que na sua ingênua humildade está pondo a perder sua chance de conquistá-lo.
Porém, essa situação a faz lembrar-se de que ela própria nasceu no precário berço da pobreza e precisou se submeter a várias situações difíceis na cidade grande para chegar à posição que se encontra hoje.
Pode fazer a diferença na vida dessa moça, pode ajudá-la de forma prática e aconselhando-a também.
Perdeu total interesse no jovem rico, agora seu foco é outro.
Outro ser humano que está a vias de se corromper por uma ilusão.
A cidade grande não é nem de longe o caminho certo, ou melhor, o único caminho.
Alice por outro lado, não é boba. Percebe logo que entre o jovem amarrotado e a ruiva pode haver algum envolvimento.
Os olhos da mulher soltaram faíscas ao reparar no pequeno, mas intenso interesse que os envolve.
Porém Alice não se importa. Sabe muito bem que nada vai acontecer. Jamais trocará sua sanidade mental, sua tão preciosa reputação na pequena cidade por algo inalcançável.
Quando está prestes a virar as costas àquela situação, sente a mão pequena da ruiva lhe tocando o ombro:
— Vou te deixar meu cartão, pois preciso falar com você.
— Não se preocupe dona, eu não quis ofender ninguém apenas retribui o sorriso do moço.
— Eu sei. Não estou preocupada com isso ou com ele. Quero apenas ajudá-la.
Diante do olhar incrédulo da moça Bárbara continua e bastam apenas algumas palavras para que Alice entenda tudo.
Elas abrangem todo o lugar com o mesmo olhar:
— Eu também já passei por isso. E não desejo esse caminho para mais ninguém.
Hoje Alice não trabalha mais na lanchonete anexa ao posto de gasolina da pequena cidade.
Conheceu a capital, estudou, deu duro e se formou. Faz pouco tempo voltou para casa com clínica veterinária montada. Tudo isso às custas de Bárbara que praticamente adotou, financiou e encorajou de todas as formas possíveis a sonhadora garçonete da beira da estrada.
De Pedro elas nunca mais ouviram falar  já dos assuntos da vida, sonhos, planos, planejamentos e metas… disso elas conversam todos os dias.


 'Corações Femininos'— Contos e Crônicas






sábado, 29 de fevereiro de 2020

     
                      Aprendendo a Viver  


Alguma vez você já se deu conta de que pessoas que não tem as mesmas condições de nascimento, vivência, realidade de vida, futuro... precisam se virar para sobreviver?
Isso entre tantas outras coisas que podem nos separar na tal condição social é o que algumas vezes faz a diferença na vida de pessoas anônimas que cruzam nosso caminho. Ou não.
‘Aprendendo a Viver’ nasceu quando me dei conta de que as crianças e adolescentes que vivem em abrigos e orfanatos por aí são obrigados a sair dessas casas e viverem por conta própria aos dezoito anos de idade a imaginação correu solta imaginando cada caso, cada história.
Com tantos caminhos a seguir e praticamente nenhum apoio como podem sobreviver no mundo grande e escuro pelo lado de fora das portas que os mantiveram em segurança por toda a vida?
Nada mais triste que uma protagonista depressiva com uma melhor amiga viciada, que além de conviver com tudo isso ainda precisa sobreviver, pensar no futuro e quem sabe viver um amor.
Foi assim que Hadassa, Patrícia e os charmosos policiais Antony e Lukas surgiram para dar vida a uma turma legal e problemática também. O romance é gostoso, com pouca probabilidade de dar certo, mas como o amor não liga para números dispostos em gráficos...


"Antony abre espaço sobre a mesa de jantar. Hadassa é leve como uma pluma nos braços fortes do rapaz.
Com os olhos emparelhados ele afirma categórico:
— Não preciso de nenhuma outra mulher na minha vida. Você já tem me atormentado o suficiente, fui claro?
                                                                                Relativamente mais relaxada ela                                                                                             esboça um sorriso.
                                                                                  — Não sei se devo ficar feliz em ser                                                                                                    um tormento em sua vida.
                                                                                As bocas juntam os sorrisos num beijo."

Aprendendo a Viver   https://amzn.to/2W2gB8Q  



Colaborando #fiqueemcasa 'Aprendendo a Viver' gratuito de 23/03 a 27/03



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020


 Ou ela ou meu cavalo baio

O rancho é meu lar. Trabalho de sol a sol na labuta diária onde cuido da criação do sítio.
Galinhas, patos e toda espécie de aves que aparece e desaparece a seu bel prazer.
O patrão é homem bom que mantém o lugar mais por obrigação do que por amor, pois pertence a sua família desde sempre.
Hoje estão estabelecidos na capital não têm necessidade alguma de virem pra cá. Mesmo assim vêm de vez em quando, principalmente nas férias.
Aí juntam turma entre familiares e amigos para curtirem a roça.
Não gosto dessa época. Atrapalham meu trabalho. Quem gosta mesmo é a turma da limpeza. As mulheres do vilarejo se alegram demais com o dinheiro extra.
E nesse ano não foi diferente. O pessoal chegou logo nos primeiros dias do mês. Como estava tudo em ordem a minha ideia era deixar que eles comandassem a situação e então eu montaria na garupa do meu cavalo baio e tudo seria como sempre.
Mas daí eu a vi.
Foi como se o sol fosse ofuscado pelo brilho do seu sorriso.
Os cabelos sedosos balançando de um lado para o outro ao se admirar com cada pedacinho do rancho.
O filho do patrão era todo babão. Mal se dava conta de como estava encantado por ela.
Sorrisão na cara todo solícito.
Eu que não queria ficar assim não. Por aqui as mulheres que babam por mim, pelo menos é o que dizem por aí.
Rosália é que toma conta da casa nessa época e logo percebe todo o alvoroço em torno da moça. Diz que para ela sua beleza não fede nem cheira, mas o que importa é a simpatia.
 E a danada além de linda é a simpatia em pessoa.
Quer percorrer todos os cantos do sítio. O patrãozinho não dá conta e encarrega o empregado, no caso eu, de fazer o turismo na região.
Melina. Esse é o nome dela. Rima com menina. E menina é sinônimo de graça e esperteza.
A primeira coisa que ela quer é conhecer todos os bichos. Se encanta pelo sistema de criação do rancho. Se alegra com toda a fartura da horta, dos ovos do galinheiro, dos peixes do criadouro.
E o sorriso se alarga quando descobre a cachoeira que desagua no rio Manso, que de manso mesmo só tem o nome. Mas ela não tem medo, diz que nada como um peixe.
Que peixe o quê, para mim está mais pra sereia.
Rosália estranha me ver corar, nunca me imaginou vermelho diante de um elogio.
Mas é exatamente assim que fico diante do entusiasmo da moça. Ela amou o lugar. Meu lugar.
Tudo bem o rancho pode não ser meu, mas tudo que tem aqui é fruto do meu trabalho, portanto é gratificante ver seu sorriso de admiração elogiando minha competência.
Descubro nessa hora que a moça é estudada. Fez faculdade de Engenharia Ambiental. Nome pomposo que segundo ela nada mais é que organizar e fazer o maravilhoso trabalho que eu fiz ali. E sozinho. Sem diploma nem nada.
Agora já sinto até as orelhas queimando. Trabalho de sol a sol todos os dias da semana e apesar de receber meu pagamento todo mês em dinheiro o melhor mesmo é ver o progresso do sítio.
Rancho Fundo foi batizado por conta da famosa música sertaneja, mas Melina o rebatiza de ‘rancho lindo’.
Linda mesmo é essa menina. Melina.
Todo dia uma surpresa. Que esse mês nunca se acabe. E ainda por cima a danada diz que se apaixonou por meu cavalo baio.
Apaixonado estou ficando eu.
O patrãozinho não tem chance. Não aquenta sequer os mosquitos e vive de repelente. Sempre a convidando para a piscina, que ela recusa sorrindo ‘quem quer água parada quando tem um rio imenso?’
Certa noite de calor sufocante, fui para o rio me refrescar e me deparo com uma cena impressionante.
Nada mais nada menos que a linda Melina, nua, brincando nas águas do rio.
Meu cavalo baio me denuncia reconhecendo sua favorita.
Relincha alto, mas ela não se assusta.
Sorrindo me convida:
— Vem seu enxerido, até parece que adivinhou meu pensamento.
Não sei se ela percebeu minha covardia, mas para minha alegria ela mergulhou e logo depois emergiu me desafiando:
— Está com medo cowboy!
Mais que depressa apeei do meu cavalo e tirando a roupa apressado mergulhei no desconhecido.
Linda menina Melina, que de menina não tem nada.
Naquela noite estrelada nascia uma nova vida para mim.
O que nunca cogitei aconteceu naquela madrugada.
A lua, as estrelas e meu cavalo baio foram testemunhas do nosso amor.
Tanto o patrão quanto o filho, depois daquelas férias já sabiam que nada nunca mais seria como antes.
Eu e Melina. Melina e eu.
Almas gêmeas ou metades da mesma laranja. A tampa da panela, o pé certo para o chinelo… isso não importa.
O que interessa mesmo é que nunca precisei escolher entre ela ou meu cavalo baio.
Desde esse dia eu tenho os dois.



'Corações Femininos'
-Contos e Crônicas- 
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Dia das mulheres está chegando e com isso várias ações acabam fazendo parte de um todo em prol da vida e das resoluções femininas e você MULHER o que tem feito para transformar a sua vida? 

O livro "Corações Femininos" está recheado de histórias envolventes, emocionantes e algumas vezes até revoltante.
Conheça este portal mágico que te fará entrar de cabeça no universo feminino:


Sabe esse papo de que mulher é exemplo de vida…
Pois é foi com o intuito de dar exemplos de vida, sentimentos, problemas, dificuldades e alegrias de mulheres ‘comuns’ que resolvi colocar em formato de livro alguns textos do blog, assim surgiu ‘Corações Femininos'



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“Comuns” no sentido plural, abrangente e universal, pois no fundo são mulheres únicas, de vidas únicas.
‘SENTIMENTAL’ esse é o adjetivo físico e psicológico desses exemplos de mulheres vivas ou mortas com vidas retas ou tortas, mas é isso o que torna suas oratórias tão emocionantes.
Corações Femininos  é uma leitura tipo biográfica com sentimentos profundos do dia a dia.

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