Sofrimento
Sinto minha vida se esvaindo de
mim. Não tenho forças para lutar. A todo o momento sinto ânsia de vômito, e
junto com ela vem a consciência de que não consigo lutar contra vício. É mais
forte que minha vontade de viver, ou melhor, de sobreviver.
Sempre fui muito bonita, loira de
olhos azuis, cabelos lisos e sedosos que chamavam a atenção em qualquer lugar.
Sempre tive uma convivência difícil com minha mãe, acho que a beleza de uma
filha jovem e atraente prejudicou a relação entre mãe e filha, quando essa mãe
acostumada a ter a atenção masculina voltada para si, e de repente a menina
magrela e sem sal vai se tornando uma beldade.
Mas logo meu coração é fisgado.
Sem muitas opções de vida, me vejo presa a um casamento bom, mas sem emoções.
Daí vem os filhos, razão do meu viver. Três bençãos que Deus colocou na minha
vida. Amor é palavra fraca para descrever a emoção de tê-los, vê-los crescerem
e conviver dia a dia com meus filhos queridos.
A monotonia do casamento aliado
aos cuidados de três meninos cheios de energia e vigor me obrigam a tentar
novas emoções na bebida. Primeiro aos fins de semana, para acompanhar o marido
que gosta de um churrasquinho nas reuniões de amigos e parentes, depois para
suportar as constantes viagens a trabalho desse marido cada vez mais distante
física e emocionalmente. E por fim ela se torna minha amiga de todas as horas.
Companheira inseparável e cruel. Desfaz de uma vez por todas as minhas
esperanças de uma vida melhor, de resgatar
meu casamento, minha vida familiar.
Quem no começo era meu
companheiro de bebida, quem primeiro me apresentou a ela, se torna de repente
meu principal acusador. Defensor da moral e dos bons costumes me abandona à
própria sorte. Nem o sofrimento dos filhos, nem minhas súplicas, nada disso o
remove de sua decisão. Vai recomeçar a vida ao lado de outra mulher.
E eu, o que faço agora?
Sinto minhas forças se esvaindo
de mim. Essa droga de vício! Se não fosse essa dependência, essa fissura... A
bebida até poderia me ajudar, me dá coragem para recomeçar. Mas não, ela só me
consome. Não sou mais dona dos meus atos. Faço coisas repugnantes. Sei que me
tornei frívola, amarga e decadente. Mas não é minha culpa!
Perdi meu bem mais precioso: Meus
filhos.
Eles tem asco de mim, me ignoram,
não entendem meu amor por eles, minha preferência pela bebida. É mais forte que eu.
O corpo debilitado, não resiste a
um AVC ( acidente vascular cerebral). Todos me abandonaram, só minha fiel amiga
ainda me acompanha. Medicamentos e bebidas alcoólicas não podem andar juntos,
preciso escolher entre os dois. Meu atual companheiro, com quem divido a casa,
a cama e meu vício, sempre escolhe por mim.
Nos últimos dias tenho me
preparado para a partida. Estou só. Abandonada por todos. Cada um tem seu
compromisso, afinal é véspera de natal e sei que no próximo ano, nessa mesma
data, todos se lembraram de mim. Chorarão por mim. Rezarão por mim.
Mas hoje estou só. E sinto muito
por estragar os planos e as festas de parentes e antigos amigos, por que hoje,
somente hoje, pela última vez serei mais importante que meu vício.

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