domingo, 9 de agosto de 2015

 Memórias de uma filha saudosa

Pai, desde muito cedo o perdi, mal tive tempo e te conhecer e te curtir, mas te amei muito e ainda amo.
Olho para sua foto e não consigo me lembrar do seu semblante, mas ao fechar os olhos me lembro de muita coisa que vivi com você nos onze anos que passamos juntos.
As histórias que minha mãe me contava me levavam direto para aqueles anos,  onde eu ainda  bem pequena, recebia de você presentes inusitados como um monte de carrinhos ,que eu, sendo menina não enxergava muita utilidade como brinquedos e isso deixava minha mãe muito brava com você.
Pai lembro-me bem dos passeios que fazíamos com você para a casa dos parentes, em especial um dia de domingo ensolarado que você nos levou até a casa de um primo distante que, orgulhosamente nos conduziu até a construção de sua casa nova. Uma casa enorme de dois andares com uma escada no meio da sala. Até hoje tenho o desejo de ter uma casa parecida, com escada e tudo!
E o dia inesquecível que eu e meu irmão Ronaldo- os dois mais velhos- fomos levados ao seu local de trabalho. Por favor, pai, me desculpe pela vergonha que te fiz passar por não saber usar o telefone, sei que fui motivo de riso para seus amigos, mas também fui motivo de orgulho quando elogiaram minha beleza e esperteza aos sete anos de idade.
 Pai parece que até hoje ouço sua despedida quando saia para o trabalho e ficávamos repetindo:
-tchau pai, vai com Deus!
E repetíamos até não ouvir mais sua voz no final do beco.
A gente morava na favela- hoje conhecida como comunidade- e como éramos felizes!
Sua felicidade com sua prole de quatro filhos, todos pequenos, uma escadinha, era conhecida por todos.
Sua alegria em pagar fotógrafo para registrar seus filhos com a camisa do time do coração- o Atlético- desculpe de novo pai, mas hoje minha torcida é para o rival Cruzeiro, espero que entenda que isso realmente vem do coração.
Lembro-me do dia da sua morte foi sem dúvida
o meu primeiro dia de profunda tristeza e inesquecível para todos.
Sei que lutou bravamente contra o vício, contra o alcoolismo, porém já era tarde demais e seu organismo não suportou a cirurgia.  Sei também que a tristeza foi imensa, foi duro termos sido privados da sua convivência.  Sinto muito pelos meus irmãos mais novos que não tiveram a mesma sorte que eu, pois eram muito pequenos nessa época, mas saiba que te amamos muito e a sua falta foi marcante em nossas vidas.

Vejo hoje que muitos pais não se preocupam em ocupar um espaço na vida dos filhos, mal sabem que estão perdendo preciosos momentos e incríveis lembranças que os filhos poderiam levar para o resto se suas vidas. No nosso caso não houve opção, te perdemos por força maior e eu sempre soube que caso pudesse estar conosco seria um ótimo pai e o pouco tempo de convivência provou isso.

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