Alma gêmea
Em algum lugar do
universo existe alguém pronto para mim. Todos os dias, ao abrir a janela do
quarto e sentir o sol inundando o ambiente, meu pensamento voa até você. Não
sei quem, é como é ou onde está. Só sei que somos feitos um para o outro. E
mesmo que zombem disso, achando impossível, é isso que eu sinto e ponto.
Sou professora no colégio Santa Isabelita, acompanho meus alunos com o
olhar pelo pátio. Vejo as brincadeiras, os sorrisos, os olhos brilhantes e
confesso que não sinto falta dessa idade. O que faz falta é a inocência e a
falta de compromisso com regras e deveres de uma vida adulta.
E um desses deveres me leva direto à sala dos professores. A
socialização às vezes me chateia, é um sem fim de lamentações. Ninguém parece
feliz com a vida que leva. A começar pela diretora, dona Juliana, sempre mal
humorada a reclamar dos alunos, da burocracia, do governo, etc.
E o que dizer dos meus nobres colegas?
Arthur é o professor de educação física, preciso reconhecer, é um gato,
mas sem graça coitado, sempre às voltas com problemas domésticos com a jovem
esposa ciumenta.
Cristina é um amor de pessoa, talvez a única que se salve no meio desses
tubarões metidos a inteligentes. É meiga e gentil. Uma pena que os alunos se
aproveitem disso para enlouquecê-la com bagunça e gritaria.
Sônia é a mais experiente entre nós, não quero ser indelicada a ponto de
chamá-la de velha, só quero deixar claro que está na hora de se aposentar, só
não tem a coragem de fazê-lo. Deve ser mais cômodo viver de reclamações e
resmungos do que tentar ser feliz curtindo uma aposentadoria.
Renato só entende mesmo de matemática, não se comunica bem, não dorme
bem, não come bem, enfim, não vive bem.
Vejam bem, não quero passar a impressão, de que minha vida seja um
fiasco. Não é. Apenas não estou em um bom dia, por isso só vejo o lado negativo
das pessoas a minha volta, no caso meus colegas de trabalho. Normalmente são
uns fofos, e definitivamente, o problema é comigo e não com eles.
Acordar assim, louca por amor, por amizade, sei lá, por um sorriso, que
seja, pode prejudicar novos contatos, novas amizades. Pois estou ansiosa por
uma mudança, mas uma mudança de acordo com minhas expectativas. E entrar na
sala dos professores e conhecer dois novos colegas do sexo oposto, para uma
mulher em busca da felicidade pode ser o auge da vida adulta.
Nunca escondi de mim mesma, nas minhas fantasias, que quero conhecer um
homem forte, com uma boa pegada, bonito, simpático, inteligente. Algumas vezes
é negro, outras loiro, mas o principio é o mesmo: Um ser perfeito!
Eu não fui informada da chegada iminente dos dois novos professores,
portanto não tive tempo de fazer conjecturas sobre os mesmos.
Sair do pátio barulhento, iluminado pelo sol matinal de uma bela manhã,
e entrar na sala com pouca luminosidade, aonde sei, cada um está sentado no
lugar de costume e reclamando das péssimas provas dos alunos, portando, não há
novidade alguma. Vou direto para a bancada, onde fica o café e uns biscoitinhos
e não reparo que meus colegas estão de pé conversando com gente nova.
Esbarro em um grandalhão: Alto, ombros largos, boca carnuda e olhos
verdes. Quase deixo a xícara cair ao ver na minha frente a personificação dos
meus delírios sexuais.
Balbucio uma desculpa inaudível, ajeito os óculos. Viro-me rapidamente e
aí algo incrível acontece. Dou de encontro ao outro novato e sou amparada por
um par de braços leves, mas firme. O olhar doce, mas sensual. Um sorriso lindo
e uma voz potente:
-Bom dia!
Já habituada a penumbra da sala fico sem voz olhando para um homem
comum, estatura mediana, e um cheiro másculo. Não consigo tirar meus olhos dos
seus e respondo com a voz rouca:
-Bom... Bom dia...
Sônia vem em meu socorro, apresentando-me os dois novos reforços para o
ano letivo e mesmo não sendo tímida, fui para o canto, próximo a janela para
assistir às boas vindas, quase não participando do evento.
O recém-chegado fortão é o apoio de Arthur na educação física, e está
recebendo toda a atenção da ala feminina, imagino se todo profissional dessa
área precisa ser necessariamente bonito. Já temos problemas suficientes com
alunas sofrendo de paixonite aguda por Arthur, agora então com o tal Marcelo,
com certeza aumentará bastante essa estatística.
Já o outro representante da classe é Daniel, professor de Ciências, e
veio mesmo a calhar, já faz um tempo que estamos precisando de um profissional
para essa disciplina.
Daniel, apesar de solícito com os outros, me olha através da lente dos
óculos, e eu posso perceber que por trás dessa lente tem um homem e tanto.
Ele se aproxima aos poucos, seu sorriso me leva direto às manhãs
solitárias, na minha cama, quando olho para o lado oposto, vazio e imagino
exatamente este rosto, este sorriso.
Fecho os olhos e descubro que até o seu cheiro me é familiar.
Meu Deus! Devo estar louca. Aqui parada, olhos fechados, respiração
acelerada.
Ouço sua voz próxima ao meu ouvido:
-Eu também me sinto assim todas as manhãs!
Arregalo os olhos espantada.
E então me vejo no seu olhar.
Sorrimos um para o outro.
Abro a janela do meu quarto, deixo a luz da manhã inundar o quarto. Olho
para a cama e o vejo dormir. Agradeço a Deus, ao universo, ao amor, pois enfim
encontrei minha alma gêmea.
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